Já ouviu falar no Sertão da Ilha em Floripa?

December 20, 2018

 

Como vivem os moradores do último reduto rural entre vales e encostas de Florianópolis.

 

Um feixe de luz ilumina os barris de madeira e as garrafas de cachaça do engenho. O tempo passa devagar no Sertão do Peri, a 30 quilômetros do centro de Florianópolis. É assim desde o século 19, quando os antepassados de Zeca se mudaram para lá. Aos 56 anos, José dos Santos, o Zeca, ao lado do irmão Bento, é um dos três últimos na comunidade a produzir cachaça artesanal.

 

Desde 1942 o rancho da família produz pinga destilada de forma tradicional, envelhecida em barris e engarrafada ali mesmo. Mas a velha roda d’água do alambique está parada. As casas de farinha minguaram. As roças já não representam fartura. As lavouras de mandioca, feijão e milho agora só alimentam as famílias que resistem nas pequenas propriedades da região. O alambiqueiro representa, junto a outros moradores, os últimos resquícios de uma Florianópolis que ficou no passado e cujo modo de vida pode estar com os dias contados.

Localizado dentro do parque municipal da Lagoa do Peri — o maior manancial de água doce da Ilha de Santa Catarina — , o Sertão é o último povoado rural de Florianópolis. Foi ocupado desde 1761 por descendentes de imigrantes açorianos e até 1970, a comunidade vivia praticamente isolada. Por muito tempo os engenhos de madeira tocados a boi produziram a cachaça e a farinha de mandioca que deram fama ao local. Mas nos últimos 30 anos a região experimenta o êxodo dos moradores.

 

O povoado só não desapareceu devido à teimosia de gente como seu Zeca, que não arreda pé do Sertão, apesar da terra já não render tantos frutos para seu ofício. “A gente não tem apoio de ninguém, pelo contrário, as autoridades só criam dificuldade pro nosso trabalho. Não podemos plantar, colocar adubo na terra, aumentar a roça porque são as regras do parque. Nós somos o que sobrou do Sertão”, diz Zeca.

 

O Parque Municipal da Lagoa do Peri foi demarcado em 1982, seis anos depois de sua criação e de ser declarado patrimônio natural de Florianópolis. Tem 2.300 hectares balizados pela crista de morros verdejantes de mata atlântica. O principal objetivo do parque era preservar os mananciais que abastecem a lagoa, onde uma estação de tratamento da Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) fornece água para cerca de 100 mil pessoas.

 

O projeto deu certo. Saíram palmiteiros, caçadores e invasões ilegais. Árvores cresceram em pastos e animais silvestres voltaram. Mas na criação do parque, as autoridades prometeram como futuras atividades um programa de preservação dos antigos engenhos coloniais, um projeto sociocultural para a comunidade e um programa de assistência técnica aos moradores que já viviam dentro dos limites do parque.

 

As propostas de conservação dos engenhos e de assistência técnica aos moradores, no entanto, nunca saíram do papel. Viraram lenda. Proibidos de plantar, coletar e construir como faziam antes, a comunidade teve seus métodos tradicionais atingidos, pois não se apresentou nenhuma outra opção de manejo do solo. A renda caiu e assim começou o êxodo.

Os nativos passaram a buscar empregos em outros bairros e a migrar. “Dos meus oito filhos, só dois seguem morando no Sertão. Todo o resto foi atrás de trabalho e de dá jeito na vida. O parque conservou a natureza, mas acabou com nosso modo de vida tradicional”, desabafa Maria Júlia Lopes Vieira, a dona Maria.

 

No final da década de 70 existiam 22 engenhos no Sertão. Apenas três resistiram. Em alguns, só sobraram ruínas, escondidas pelo mato que cresce. Muitas das peças e engrenagens que os compunham foram vendidas para colecionares de objetos artesanais antigos. E pouco a pouco, os pais deixaram de transmitir esse conhecimento centenário para a próxima geração. Um dos remanescentes, o Alambique do Zeca, se mantém pela teimosia de seu dono que até lenha para queimar a cana precisa comprar na ‘cidade’. “Como vamos conseguir seguir aqui se nem a lenha podemos tirar da terra?”, questiona Zeca.

O Sertão não tem posto de saúde. Também não conta com esgoto. O abastecimento de água é feito diretamente das nascentes e cachoeiras. A velha igreja está fechada para reforma. O único sinal do poder público na região são os fiscais que trabalham no parque.

 

Pouco conhecido, o Sertão do Peri contrasta com as mais de 40 praias de Florianópolis que atraem os turistas. Praias, aliás, que tanto dona Maria como seu Zeca quase nunca frequentam. Só vêm ao longe, do alto das encostas vizinhas à esburacada, sinuosa e íngreme estrada que corta o povoado.

Para as cerca de 40 famílias tradicionais que moram nas encostas e vales formados pelo maciço do Peri, a vida sempre se ateve ao isolado Sertão. “Sempre tivemos quase tudo que precisávamos. A gente levava nossa farinha de mandioca no lombo do cavalo para vender no Pântano do Sul e trazia coisas que precisava. Era bom. Depois, as pessoas foram saindo”, recorda dona Maria.

 

Dona Maria mora na mesma casa de madeira desde a década de 40. A construção rústica é charmosa, com janelas vermelhas, móveis antigos, paredes verdes e azuis. Há 30 anos, a luz elétrica chegou e trouxe conforto. O fogão a lenha foi substituído por um a gás, onde ela gosta de fazer “berbigão frito”, molusco típico da Ilha, em almoços especiais. A geladeira reina soberana na cozinha e a mesa é o lugar de reunir a família. A televisão é item de luxo, mas passa boa parte do tempo desligada. O telefone está ali, caso Maria precise de ajuda. Ele também serve para alinhar encontros futuros. “Me liguem, eu vou matar uma galinha pra gente almoçar”, convidou.

 

O local está na área de influência da bacia hidrográfica da Lagoa do Peri. Rios e córregos correm pelos morros do entorno e desaguam na lagoa. O vale onde se assenta o Sertão nasceu do movimento das águas nas encostas. O silêncio é cortado somente pelo canto dos pássaros, entre eles um tucano azul, um dos preferidos da dona da casa. “O bom daqui é essa paz, essa tranquilidade”, define Maria, que gosta de uma boa conversa e de passear calmamente pelo curral, em companhia dos animais que cria. “Além dos meus bichinhos, gosto dos tucanos e aracûans que aparecem aqui na mata do fundo”.

 

O acesso à comunidade é feito pela estrada de chão Francisco Thomaz dos Santos. O nome é uma homenagem a Chico do Alambique, alambiqueiro do Sertão que manteve o último engenho tocado a boi da região e que em 1996, morreu assassinado de forma misteriosa. Cheia de curvas, a estrada tem pedras e cascalhos soltos na pista, o que pode dificultar a passagem em trechos mais íngremes.

 

Dona Maria gosta de caminhar pela estrada para visitar vizinhos. A vista deslumbrante do alto da montanha compensa o esforço. “Aqui você vê o Sul da Ilha, o Morro do Cambirela, as praias de Palhoça, as ilhas que rodeiam a Ilha, é bom demais sair por essa estrada”, conta Maria, de corpo miúdo, mas forte. Quatro vezes ao mês, ela segue a pé ao Centro para consultas médicas. “Saio caminhando até o Ribeirão da Ilha. Na volta, meu neto me busca de moto, porque as subidas são puxadas”. Questionada se vai a uma das praias do entorno, é rápida: “Não! Gosto de ficar por aqui”.

 

Em alguns pontos da estrada Francisco Thomaz dos Santos, a parada se torna obrigatória para ver a paisagem paradisíaca, que mistura tons de verde da mata com o azul das baías e marrom dos costões. O cheiro úmido de floresta inebria o olfato, o canto das aves é cantiga para os ouvidos. “Pedalar por aqui é maravilhoso, renova as energias, sem falar do visual”, disse Charles, que mora na praia de Açores e costuma pedalar pelo Sertão.

 

Durante o dia, poucos carros cruzaram o caminho. Alguns paravam na estrada para curtir a vista, outros passeavam por trilhas que levam às cachoeiras intocadas. Em uma delas, piscinas naturais se formam e a água, embora gelada, é um convite para o relaxamento.

 

“Cachoeiras têm de monte aí nesse mato”, diz Zeca. Uma placa na entrada avisa: proibido fotos e filmagens. Zeca é desconfiado e gosta de preservar a casa onde mora do olhar de curiosos. Ele também não gosta de sair em fotos. Sua sisudez começa a desaparecer com o desenrolar da conversa. Bastam algumas palavras para expor seu jeito irreverente, estampado nas piadas que solta. Ele adora conversar e contar causos.

 

Dos seus sete filhos, quatro já deixaram o Sertão. Três estão com ele e a mulher, as pequenas gêmeas e uma adolescente. Todas estudam em outros bairros. Zeca sabe que o futuro deles é lá fora. “Vão fazer o quê? Né! Não tem jeito, os quatro mais velhos estão cada um num canto, e com esse vai ser a mesma coisa. Sei que sou um dos últimos do Sertão”, afirma.

 

Zeca é alambiqueiro e mateiro. Nasceu e sempre morou no Sertão. Sua cachaça é destilada por conta dos pés de cana que plantou há anos em sua propriedade. Ele não sabe por quanto tempo o pequeno canavial vai durar. Atualmente, ele compra cana para complementar a produção, assim como a lenha em que produz a pinga. Mas sua cachaça vende bem. Gente de todo Brasil, e do exterior, em passagem pela Ilha visita seu Zeca. Muitos se tornam amigos. “Eu conheço muita gente, aqui vem juiz, delegado, promotor, gente importante mesmo”, se gaba.

Para homenagear os delegados “chegados” do alambique, Zeca batizou de “Delegado” sua cachaça mais forte, uma branquinha com 70% de álcool. Ao ser derramada sobre a mesa, pega fogo e queima lentamente. A Delegado é de estalar os olhos. Tem também as cachaças mais suaves, envelhecidas ou licorosas, como a de maçã.

 

Zeca tem orgulho de seu ofício, vive da cana e da mata, porém não pode aumentar a roça, que está com o solo fraco. As regras do parque não permitem. “Eu só queria aumentar minha roça, porque meu solo para plantar está cansado. A cana nasce fina. Não dá pra nada. No final tem bagaço podre. A cana tá pequenininha”, conta. E sem novas roças, a tradição da cachaça artesanal pode terminar.

 

Fonte: Internet
 

 

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